A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e cultivo o quarto, pois de uma única semente não se tem boa horta. Nessas andanças, fiz-me professora, supervisora, neuropsicóloga clínica, psicoterapeuta e, enfim oficialmente, escritora.

No terceiro episódio sabemos o que se passou: fotos íntimas da adolescente circularam na escola; julgando que ela estaria fragilizada pelo vexame, o adolescente tenta a sorte e, ao ser rechaçado, ele a esfaqueia. Todos, sem tirar nem pôr, conhecem a vergonha e a temem, mas a gente menospreza o seu papel na conduta violenta. Vamos ver o que dizem algumas pesquisas psicológicas?

Uma família alemã habita uma casa em um cenário bucólico. Cinzas fertilizam o jardim, depositadas para potencializar flores. Deduzir a origem do fertilizante perturba os informados: são cinzas humanas. A propriedade divide muro com o campo de concentração de Auschwitz. Essa é a exata distância, supostamente segura, que imaginamos ter do passado.

Doze naves chegam à Terra. Como há evidências de que seus ocupantes extraterrenos intentam conversar conosco, a linguista Louise Banks e o físico teórico Ian Donnelly são convocados a estabelecer a comunicação. Enquanto isso, nosso mundo vira uma balbúrdia maior que a habitual. Borbulham teorias conspiratórias, os civis estão desorientados. O que será que podemos aprender sobre linguagem e nós mesmos com esse filme?

Qual a validade de um corpo? Muito curta quando precisamos manter a farsa de que não perecemos. Elisabeth não serve mais, estragou-se para o uso televisivo. Então consegue o que quer: um corpo novo para uma vida anterior. Em velocidade estrondosa, ela assiste ao seu apodrecimento, parasitada pela juventude que pariu de sua coluna. O filme foi muito comentado. Esfera do gosto. Vou tirar leite de pato porque preciso dar sentido às mais de duas horas que perdi para me atualizar nessa “trend” cinematográfica de 2024.

Um jovem morre afogado ao tentar salvar uma criança. A versão do que antecede à sua morte heroica está no livro “O completo estranho”. Nele, o leitor encontra, em um cenário “italianamente” sedutor, o romance de uma “mulher terrível” que merece seu final. O que é ficção quando, na realidade, os personagens – o jovem, a criança e a mulher –, existem? Um livro é enviado à mulher. É ali, do meio da sua cozinha, um espetáculo visual à parte, que a vida dessa mulher começa a desabar: o casamento, o emprego, a reputação. Será esse livro o maior perigo da minissérie?

Neste filme da francesa Justine Triet, da anatomia de uma queda, passa-se à anatomia de um casamento. Não é a dúvida que induziu à investigação, mas a suspeita. Projetamos a história da verdade, mas isso é a verdadeira história? O que há por trás de uma morte? Finalmente, podemos perguntar, a despeito de nunca alcançarmos todas as respostas: o que esconde o véu da ficção?

Na fala, as frases são tão mais fáceis de sair – sei que algumas escapam fora de hora à mercê de determinadas cabeças e bocas. Nas conversas, as frases são apenas parte da cenografia, acompanhadas por gestos e um imenso repertório de recursos vocais de entonação e respiro. Na publicação, as frases são tudo. É lá onde elas ficam realmente frágeis e vulneráveis para serem roubadas. Sem aspas e sem outros indicativos, quem notaria que a frase nasceu em outro lugar? Outra pergunta: os senhores perceberam que a IA não usa aspas?

Antigamente, o amadurecimento fazia-nos superar várias etapas, entretanto, na atualidade, os mais velhos dão ré e os mais novos não avançam. A modernidade teve a proeza de juntar a alteração da consciência com a alteração do desenvolvimento e enfiou, tudo e todos, num carrossel. Mas graças aos algoritmos de narcose em massa, estamos entretidos, não é mesmo, senhores?