Destaca-se no parque a fatia grossa de um cilindro imenso (fatiado daquele jeito que gostaríamos de cortar o salame para roê-lo como biscoito). No topo, colocaram com muita delicadeza (na esfera do gosto, dividindo opiniões), um teto imitando tenda de circo. O miolo foi ornamentado com espelhos rodeados por ladrilhos coloridos e a estrutura gira com melodia de caixinha de música. É como avistar um caleidoscópio desnudo.
Em suas paredes, rodam pôneis fantasiosos que, por sua vez, deslizam na vertical, espetados em palitos de uma maneira que só poderiam estar mortos, mas, subindo e descendo em coreografia contínua, dando voltas infinitas, quem notaria? A pirotecnia sempre nos despistou dos detalhes mais sombrios, coisa que bem sabem os cassinos.
A engenhoca vingou com o progresso do modo que é habitual. A ideia foi roubada dos turcos e árabes no século XII. Senhores, sim, a geringonça é medieval. Por aquela época, servia ao treino de batalhas, simulando combates para protocavaleiros.
A partir da Revolução Industrial, virou entretenimento com a inflação das cidades. Nesse momento peculiar, foi criado também o fim de semana, seguido pelo alvoroço de gastá-lo com outra novíssima responsabilidade: proporcionar o lazer da família. Suspeito que é exatamente aí que a parada desandou de fato.
Descansar nunca foi para todos porque, para os vendedores, não é bom um negócio ficar dois dias ocioso. Inicialmente, quem mais trabalhou para a construção dos parques de diversões foram empresas de bondes. Não era pela via do fornecimento de trilhos, roldanas, cabos e alavancas, mas pelo intuito de movimentar o tráfego além do horário comercial. É como digo, senhores, sigam o dinheiro.
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Para a criança enlouquecida por cavalos que eu era, um carrossel foi uma grande decepção. O plástico frio, que meu calcanhar pelo som o acusou oco, galopava devagar para nossa segurança e, na segunda volta que deu, completou a minha frustração com tudo o que me cabia de enfado.
É como eu enxergo os algoritmos que operam em nossas redes sociais: um carrossel de narcose em massa.
Os celulares espalharam-se por nossas mãos como um bolor. Dentro deles, habita um alfaiate para ajustar a armadilha, pois cada um tem um estilo próprio de captura. Os pais, aturdidos como crianças, os tomaram por itens de diversão e agora são raras as pessoas que não têm um carrossel para acionar com o polegar que, ironicamente, ao se opor em certa linhagem de primatas, havia virado um distintivo evolutivo.
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Antigamente, o amadurecimento fazia-nos superar várias etapas: períodos de desenvolvimento, sonambulismo, enurese noturna. Nenhuma dessas superações, diga-se de passagem, tem caráter permanente ou inabalável, entretanto, na atualidade, os mais velhos dão ré e os mais novos não avançam.
Anúncios de não-realidade para evitar a confusão estão imprescindíveis, a ficção ficou impossível de ser tolerada e são pagos honorários aos advogados para pedidos de licença maternidade mediante apresentação de nota fiscal de bonecas. Creio, senhores, que estes exemplos sejam suficientes para nos causar embaraço (depois, conforme ensaios prévios, apagaremos dos livros de História – isso, claro, se eles sobreviverem).
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Conseguimos bagunçar o que Piaget fez tanto por organizar.
Durante o crescimento, estavam previstos saltos que, obviamente, dependiam dos tamanhos das pernas. É uma prerrogativa do desenvolvimento humano a parte física estar atrelada à experiência: é preciso aprender a saltar com as pernas que se têm.
Chegar ao período de Operações Concretas era conquista lá pelos sete anos e que permitia ao sujeitinho cooptar obrigações e valores conforme instruções recebidas e leis informadas, tudo isso independentemente do contexto. Aqui, o tico de gente já conhece a mentira, mas a rejeita por estar sedento pela verdade objetiva – se saltar adiante, irá descobrir a arapuca.
Porque mais a frente, ao redor dos onze anos, se despontaria a idade das teorias e o manejo de hipóteses. Não me parece mais assim. Quem hoje é capaz de se libertar do concreto e situar o real em um conjunto de transformações possíveis, ter grandes ideais e ver o pensamento se transformar em um espírito experimental?
Não podemos nem ouvir certas piadas – ficou convencionado que rir é estímulo à violência (os fanáticos discordam, afinal, nunca soltaram uma risada); ler romance apenas os de autoficção – tem de ser biografia, com eventos verdadeiros mesmo que exagerados (inventar que não pode, personagens malignos, só da oposição, que o restante, como também convencionado, impulsiona o mau-caratismo). Temos de provar que não somos robôs e a IA tem de avisar que não é gente – e todas as vezes porque fomos mecanizados e a IA ficou boa demais para a alegria dos golpistas.
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Conseguimos abalar a consciência.
Era bonito de ver esse “palco das funções mentais” (palavras de Del Nero). Não falo da consciência moral, que requer acompanhamento perpétuo, mas da ampla, do “todo momentâneo da vida psíquica” (palavras de Jaspers), aquele “dar-se conta” que doa significado às coisas – aquele lugar impalpável onde o raciocínio respira (evidentemente, se tiver condições).
A consciência pode ser afetada por rebaixamento – quando há um comprometimento difuso, generalizado, no qual a introspeção fica dificultada (o cara pouco apreende o próprio eu) – e por estreitamento – quando a consciência fica restrita a determinadas vivências e perde a capacidade de reflexão.
O estado hipnótico é um tipo de estreitamento do campo da consciência enquanto o sonambulismo é um fenômeno à parte – sem significação patológica, que tende a desaparecer com o amadurecimento.
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Pois é, senhores, a modernidade teve a proeza de juntar a alteração da consciência com a alteração do desenvolvimento e enfiou, tudo e todos, num carrossel, porque virou um bom negócio para alguns a ociosidade narcótica de muitos.
Para o lazer, não é?
Carolina R. Padovani.

