A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e cultivo o quarto, pois de uma única semente não se tem boa horta. Nessas andanças, fiz-me professora, supervisora, neuropsicóloga clínica, psicoterapeuta e, enfim oficialmente, escritora.

“Caderno de ideias e angústias”? É não é disso que são feitos os “Nossos Diários”? Também poderia chamar esta seção de “Caderno de Confissões”, que tal?
Não, vai criar expectativa. E nem espere que eu confesse tudo. Seria mentir de princípio. Como se percebe, estou com título provisório.

Na fala, as frases são tão mais fáceis de sair – sei que algumas escapam fora de hora à mercê de determinadas cabeças e bocas. Nas conversas, as frases são apenas parte da cenografia, acompanhadas por gestos e um imenso repertório de recursos vocais de entonação e respiro. Na publicação, as frases são tudo. É lá onde elas ficam realmente frágeis e vulneráveis para serem roubadas. Sem aspas e sem outros indicativos, quem notaria que a frase nasceu em outro lugar? Outra pergunta: os senhores perceberam que a IA não usa aspas?

Antigamente, o amadurecimento fazia-nos superar várias etapas, entretanto, na atualidade, os mais velhos dão ré e os mais novos não avançam. A modernidade teve a proeza de juntar a alteração da consciência com a alteração do desenvolvimento e enfiou, tudo e todos, num carrossel. Mas graças aos algoritmos de narcose em massa, estamos entretidos, não é mesmo, senhores?