Carolina R. Padovani

A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e estou no quarto, pois fiz da minha curiosidade uma estudante perpétua. Nessas andanças, profissionalmente virei professora, neuropsicóloga clínica e psicoterapeuta. Apesar de em todo esse percurso escrever textos técnicos, apenas recentemente senti que poderia dizer que sou oficialmente uma escritora. Em 2024 publiquei o meu livro de crônicas chamado “Colunata: a minha coluna inventada e outras lorotas” e lancei este blog (pois senti que o Instagram estava pequeno para mim). Aqui disponibilizo outras crônicas, além de resenhas de livros, filmes e séries. Descobri que escrever é uma forma de pensar sozinha, mas publicar é o melhor jeito de encontrar companhia.

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Colunata: A minha coluna inventada e outras lorotas

Anatomia de uma queda

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Em um chalé isolado no alto de uma montanha na região dos Alpes Franceses moram Sandra (escritora e tradutora alemã), Samuel (seu marido, escritor e professor francês) e o filho de onze anos do casal, Daniel (deficiente visual após um acidente). Sandra está com uma jovem jornalista quando o marido deixa a música tão alta, um rapper americano – indelicado com o gênero feminino como habitual (contém eufemismo) – mas sem letra, e que impede o andamento da entrevista. Enquanto isso, Daniel banhou seu cachorro para caminhar pelos arredores. Quando retorna do passeio, encontra o corpo do pai na neve.

***

Queda descuidada, intencional ou provocada? Não é a dúvida que induziu à investigação, mas a suspeita. Sandra é incriminada. Prossegue-se a anatomia do título. A queda é estudada em sua forma e estrutura. Simula-se a última conversa do casal. Lança-se do último andar um boneco guinchado e amparado por alavancas, cordas e polias. O problema da anatomia da matéria é que ela é estática como uma foto, não explica os funcionamentos, não entrega a dinâmica.

A pergunta de Sandra à jovem jornalista pode ser usada agora: o que você quer saber?

Passa-se para a anatomia do casamento. Dois idiomas transitam pela casa, o casal conversa em inglês, Daniel responde em francês. O restante não é novidade: problemas financeiros, falhas de fidelidade, divergências entre o sucesso profissional de cada um.

Recrutam-se especialistas. O psiquiatra do marido é chamado. São os monstros com quem convivemos que criam os pacientes? Sandra explica como, ao se enxergar uma fatia, se passa à suposição do entendimento completo. Cada informação que chega ao espectador serve para tocar em suas predisposições. Projetamos a história da verdade, mas isso é a verdadeira história?

Samuel quis mudar para o chalé em sua cidade natal. É o ser dos projetos inacabados. Sandra é a resolução. É importante destacar que são um casal de escritores, pois uma ideia de enredo é abandonada pelo marido e Sandra a retira do cesto, a reedita, a nutri e produz um livro. Encena de um mesmo ocorrido duas possibilidades de caminho. O que Sandra revela são as bifurcações de perspectivas. Seu advogado é categórico: nossa opinião não é o fato e, portanto, não pode prescindir de provas. Como provar o que ninguém viu?

É por sermos seres racionais que podemos fazer coisas irracionais. Como o processo criativo de Sandra é autoficcional, a literatura é trazida ao tribunal, lugar por excelência das narrativas. A diretora, Justine Triet, reflete em entrevista: “Isso acontece o tempo todo. Você escreve algo e então se torna realidade”.

***

Nenhuma narrativa é inocente. Ela sempre convoca a uma interpretação. É difícil conhecer. Escutar é mais fácil. Descobre-se a gravação de uma discussão do casal. Um recorte do dia anterior explica o dia seguinte? O que há por trás de uma morte?

Quem não pode conviver com a dúvida é o filho do casal. Daniel chora dizendo “eu preciso entender”.

Daniel é o único que enxerga o mundo sabendo que há um véu que nos atrapalha a visão. É como se nos trouxesse o aforismo de Heráclito: “A natureza ama ocultar-se” (1).  Lembre-se, Daniel tem uma deficiência visual. A ciência duvida, porque a ciência tateia no escuro.

“A natureza só desvela seus segredos sob a tortura dos experimentos”, escreve Pierre Hadot citando Francis Bacon, o fundador da ciência experimental moderna, o “primeiro teórico dos métodos e das esperanças da ciência experimental” (1).

Daniel não quer escolher um lado e agarrar-se a ele como a uma certeza. Ele busca a lógica. Acompanha-se, então, um menino que levanta hipóteses, faz uma experiência, ergue uma teoria.

***

Daniel é ouvido. Diante do júri é quem tem mais juízo. É que a ciência é jovem.

A decisão do caso não é pela verdade, mas pela lógica.

Assim, me parece que Samuel representa a Emoção e, Sandra, a Razão. Juntos eles teriam parido a Disposição Científica. Finalmente, podemos perguntar, a despeito de nunca alcançarmos todas as respostas: o que esconde o véu da ficção?

Carolina R. Padovani.

Anatomia de uma queda (2023)

Direção: Justine Triet

Principais premiações: Melhor Roteiro Original (Oscar); Palma de Outro; César de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor roteiro original e Melhor Atriz (Sandra Hüller).

Onde assistir: Prime Vídeo (Amazon)

Referência

(1) Hadot, P. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da ideia de natureza. Trad. Mariana Sérvulo. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

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