Carolina R. Padovani

A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e estou no quarto, pois fiz da minha curiosidade uma estudante perpétua. Nessas andanças, profissionalmente virei professora, neuropsicóloga clínica e psicoterapeuta. Apesar de em todo esse percurso escrever textos técnicos, apenas recentemente senti que poderia dizer que sou oficialmente uma escritora. Em 2024 publiquei o meu livro de crônicas chamado “Colunata: a minha coluna inventada e outras lorotas” e lancei este blog (pois senti que o Instagram estava pequeno para mim). Aqui disponibilizo outras crônicas, além de resenhas de livros, filmes e séries. Descobri que escrever é uma forma de pensar sozinha, mas publicar é o melhor jeito de encontrar companhia.

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Colunata: A minha coluna inventada e outras lorotas

Zona de interesse

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Uma família alemã habita uma casa em um cenário bucólico. Cinzas fertilizam o jardim, depositadas para potencializar flores. Deduzir a origem do fertilizante perturba os informados: são cinzas humanas. A propriedade divide muro com o campo de concentração de Auschwitz.

“Zona de Interesse” é um filme lançado em 2023, baseado no livro homônimo de Martin Amis e que expõe o cotidiano da família do comandante nazista Rudolf Höss, com sua esposa Hedwig e seus cinco filhos.

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Nada está explícito demais e tudo é tratado como algo comum. O campo de concentração não é visto claramente o tempo todo, mas está perto o suficiente para que se enxergue suas chaminés e que se ouçam gritos de guardas e disparos. Como seria possível viver assim?

Acontece que a interpretação da percepção é uma conquista, além de tardia, frágil e maleável. Sendo o fenômeno perceptivo treinável, dado que depende de quem o observa, não adianta ele estar lá se o indivíduo não for capaz de perceber, sentir e pensar. Sem sentir e sem pensar, fica incapaz de agir.

Basta que se estabeleça, como escreveu Hannah Arendt, “uma coerência que não existe em parte alguma no terreno da realidade” (1). A coerência é obtida pela proibição das contradições, pela pretensão da explicação total, pela lógica de uma ideia, sem deduções e aplicada rotineiramente como se estende a roupa lavada, serve-se a comida, limpam-se as botas, apagam-se as luzes. Semelhante ao bem, o mal tem sua parcela de naturalidade.

Quem quiser conhecer o que se passa do outro lado do muro da família Höss, sugiro recorrer ao livro É isto um homem? (2).

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Acompanhamos a organização da família seguindo procedimentos, otimizando energia e obtendo resultados. Sua dinâmica, e não só sua existência física, é vizinha de parede com a automação do forno crematório. Uma criança sonâmbula na casa é a única indicação para uma inquietante dúvida: como eles podem dormir?

Para se ter uma perspectiva da atmosfera que o conhecimento permite criar, o vivaz cão em cena foi uma exigência da atriz Sandra Hüller para aliviar a tensão durante às gravações que ocorreram perto da verdadeira Auschwitz. Ora, perceber é saber e, portanto, não há tensão sem pensamento – disso os ansiosos sabem.

É um filme para mostrar que a interpretação da percepção não é universal. Escancara, com sua fotografia de janela aberta num dia morno de sol, que a distância do passado em relação ao presente é um muro compartilhado facilmente ignorável.

Carolina R. Padovani.

Referências:

(1) Arendt, H. (2012). Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras.

(2) Levi, P. (1988). É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco.

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Filme: Zona de interesse (2023)

Duração: 106 minutos

Disponível na Netflix.

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