Carolina R. Padovani

A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e estou no quarto, pois fiz da minha curiosidade uma estudante perpétua. Nessas andanças, profissionalmente virei professora, neuropsicóloga clínica e psicoterapeuta. Apesar de em todo esse percurso escrever textos técnicos, apenas recentemente senti que poderia dizer que sou oficialmente uma escritora. Em 2024 publiquei o meu livro de crônicas chamado “Colunata: a minha coluna inventada e outras lorotas” e lancei este blog (pois senti que o Instagram estava pequeno para mim). Aqui disponibilizo outras crônicas, além de resenhas de livros, filmes e séries. Descobri que escrever é uma forma de pensar sozinha, mas publicar é o melhor jeito de encontrar companhia.

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Colunata: A minha coluna inventada e outras lorotas

A chegada

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Doze naves chegam à Terra. Uma porta é aberta a cada dezoito horas, que é o tempo necessário para reequilibrar o teor de oxigênio e a pressão interna.  O acesso é mantido por duas horas. Depois a gravidade começa a mudar. Aqueles que entraram, acabam escorregando para fora da câmera. Senão fosse por esse procedimento, a entrada na nave representaria a morte por asfixia. São as prováveis, mas obviamente suspeitas, evidências de que seus ocupantes extraterrenos intentam conversar conosco. A linguista Louise Banks e o físico teórico Ian Donnelly são convocados a estabelecer a comunicação e iniciam um intrincado trabalho de construir uma linguagem comum.

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Se a falantes e ouvintes não faltam os atropelos interpretativos em diálogos travados na mesma língua, imagine quando ainda não há palavras definidas disponíveis aos dois lados da conversa?

Louise busca a interlocução por meio de imagens e gestos. Em um quadro, escreve a palavra “humana” e apresenta nossa espécie apontando para si e os demais. A iniciativa permite revelar que os alienígenas também têm um sistema de comunicação visual, feito com manchas de tinta que formam desenhos circulares. Depois ela escreve “Louise” e “Ian” para uma apresentação individual. É o início da alfabetização.

Se os pais têm pressa, não se equiparam aos afoitos militares e aos representantes políticos intimados a prestar contas à população.

Para que todos compreendam a extensão do processo, com sua didática de professora, Louise separa o problema-alvo: qual o propósito dos alienígenas na Terra? Não é uma pergunta simples.

Requer saber de antemão se os alienígenas são capazes de fazer perguntas, o que os mostraria como seres conscientes, ou se agem por instinto, e sabemos os perigos dessa última opção por experiência própria.

Caso eles façam perguntas, passa-se para as distinções, sendo as primeiras entre eu, você, nós, eles. Em seguida, determina-se o que seja ação, localização, tempo. Não basta ajustar esses requisitos para perguntar, é preciso ter vocabulário para entender a resposta.

Louise parte da estrutura linear de nossos enunciados, aquela conhecida como sujeito-verbo-predicado. Irá perceber que os alienígenas têm uma linguagem circular, entretanto essa descoberta demanda uma base para começar.

Dentro da psicologia de linha cognitivo-comportamental a tomada de perspectiva vem de uma relação dêitica (as palavras “eu”, “você”, “aqui”, “hoje” são exemplos de dêiticos).

“Dêixis” vem do grego e significa “a ação de mostrar”. Dêiticos mostram ou apontam uma pessoa, um lugar ou um tempo e estão ligados ao contexto e aos interlocutores da enunciação.

É por isso que se considera que a relação dêitica está no coração da linguagem, da cognição complexa e do senso de self. É uma interpretação verbal sofisticada que depende concomitantemente da interpretação do seu ambiente.

São catalogados três tipos de tomada de perspectiva: 1. Relações interpessoais (EU e VOCÊ); 2. Relações espaciais (AQUI e LÁ) e 3. Relações temporais (AGORA e DEPOIS).

A extensão da importância da contextualização espaço-temporal na interação social é ricamente observada na literatura científica que tem identificado que as relações espaciais e temporais são as mais pobremente desenvolvidas em populações clínicas.

Voltando ao filme. A hipótese de Sapir-Whorf, que esteve em voga nos 1940 e 1950, aparece para nos fazer entender algo a mais. Ela supõe que a língua influencia a forma como as pessoas pensam, enxergam o mundo e experimentam a realidade.

Assim, Louise, ao aprender a linguagem dos alienígenas começa a pensar como eles. Nesse momento, passado, presente e futuro perdem a linearidade. A ordem das cenas nos incitou a tomar os primeiros acontecimentos como flashbacks porque somos presos à causalidade, logo, somos inclinados a entender que, o que aparece primeiro, aconteceu antes. Não dá para esperar que nossa linguagem dê conta. Ela é tão frágil quanto nós.

Como são doze naves espalhadas pelo nosso planeta, Louise não é a única a tentar a comunicação com os alienígenas. A princípio, no susto da aparição desses objetos flutuantes não identificados, os esforços são realizados em conjunto com outras nacionalidades, até que a China, usando um jogo tradicional, entende que os alienígenas querem guerra. É o de sempre: basta uma frase mal interpretada para iniciar uma D.R. como para botar fim na colaboração mundial.

Louise explica que, ao apresentarmos um sistema de contraste, como entre vitória e derrota, estamos oferecendo um martelo que pode fazer tudo virar prego: um sistema de contraste não é eficaz nem suficiente para fazer distinções em um contexto de interação social – nele, as distinções são essenciais para a comunicação.

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Arma pode significar ferramenta conforme o contexto. É exatamente isso que escapa à tradução artificial, pois ir de um idioma para o outro implica um mínimo de conhecimento cultural.

Enquanto a conversa com os alienígenas custa a se desenrolar, nosso mundo vira uma balbúrdia maior que a habitual. Borbulham teorias conspiratórias, os civis estão desorientados.

A China prepara-se para o conflito armado. Para Louise, a linguagem é a primeira arma sacada em um conflito e talvez a única que o impeça. Com uma frase em mandarim (não traduzida no filme, mas que diz “na guerra não há vencedores, apenas viúvas”) Louise faz a China recuar.

Em conclusão, os alienígenas vieram dar um presente para a humanidade e, diga-se de passagem, presente que irão cobrar daqui a três mil anos, veja bem. Hoje, esse presente é uma linguagem, mas será que não poderá virar uma arma amanhã? Somos uma espécie que tem dificuldade com a gratidão e, em brigas, tem o costume de arremessar o que estiver à mão.

Como o mundo iria lidar com uma mulher que agora domina uma linguagem que a habilita a transitar pelo futuro? A humanidade nunca tratou bem os seus profetas. Pedirei muito? Com certeza, mas na próxima vinda os alienígenas poderiam nos deixar um sistema ético. Seria útil.

Carolina R. Padovani.

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Referências

Hendriks, A. L., Barnes-Holmes, Y., McEnteggart, C., De Mey, H. R., Janssen, G. T., & Egger, J. I. (2016). Understanding and remediating social-cognitive dysfunctions in patients with serious mental illness using relational frame theory. Frontiers in psychology, 7, 143.

Hussein, B. A. S. (2012). The Sapir-Whorf hypothesis today. Theory and Practice in Language Studies2(3), 642-646.

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Filme: A chegada (2016)

Ficção Científica (1h56)

Direção: Denis Villeneuve

Disponível no Prime Video

O filme é baseado no conto “Story of your live”, de Ted Chiang publicado em 1999, e recebeu oito indicações ao Oscar 2017, ganhando o de Melhor Edição de Som.

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