O título é feliz em nos deixar tão curiosos quanto desprevenidos.
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Leitor nenhum irá se deparar com a satisfação de encontrar respostas em seu miolo. Quem com isso ruir de desânimo, deve andar mal orientado pela vida. Tudo bem, com Dante se passou igual.
Reconhecer-se perdido, pode não parecer, mas é um começo. Pelo menos é assim que começa A Divina Comédia, com Dante desnorteado em uma selva. Sem esperança de sobrevivência após topar com três feras, mingua seu desespero quando o poeta latino, Virgílio, dá as caras.
Ninguém sabe como Dante foi parar naquele lugar e não foi por falta de investigação, acredite. Muita gente fica sem respostas também.
A coisa toda está para se tornar ainda mais estranha, pois Virgílio, além de estar morto, chegou para servir de guia para Dante pelos caminhos do Inferno até o Purgatório. No Paraíso, é Beatriz, paixão platônica de Dante, quem assume esse posto na viagem – aos que dizem que as mulheres são ruins de mapa, pelo visto a região delas é outra, veja bem.
Ora, não estou divagando, mas abrindo espaço de manobra.
Como revelei de início, o livro de Manguel não tem respostas, porque é um livro de perguntas. Esta obra está dividida em capítulos erguidos em torno de dezessete questionamentos como “O que é curiosidade?”, “O que queremos saber?”, e por aí vai.
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Os meus preferidos foram: “O que é um animal?”, “O que podemos possuir?” e “O que vem em seguida?”
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A razão do livro ser praticamente inteiro constituído por perguntas é que o modo natural da curiosidade, ao qual Manguel se refere, é interrogativo. Para ele, a curiosidade é a arte de fazer perguntas e não a de achar respostas, afinal, perguntamos muito, mas raramente recebemos respostas significativas ou satisfatórias, o que nos leva a fazer mais perguntas e, para os sortudos, a descobrir progressivamente mais prazer em conversar com outras pessoas.
De fato, o livro tem jeito de conversa. É importante dizer que Manguel possui uma biblioteca com mais de trinta mil livros. Se o número é inimaginável, seu texto é capaz de dar uma ideia mais precisa dessa quantidade no seu perambular com tamanha facilidade por diferentes obras, especialmente as clássicas.
Manguel não nos larga soltos em uma espécie de selva literária, muito pelo contrário; é gentilíssimo com referências e imagens. Seu objetivo não é mostrar erudição – gente educada sabe que isso é cafona.
A impressão que tive foi a de ouvir Manguel pensando alto. Ao nos entregar uma série de citações é como se abrisse livros de sua biblioteca, catando ideias como uma abelha que junta pólen para produzir seu próprio mel – uma metáfora que surrupia de Montaigne. Como disse Manuel António Pina, “a literatura é uma arte de ladrões que roubam a ladrões”.
Entretanto, nem só de “roubo” vive Manguel. Cada capítulo é precedido por um episódio pessoal. “Sem histórias, todas as religiões seriam meramente preces. São as histórias que nos convencem”.
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O que tem a ver Uma história natural da curiosidade com A Divina Comédia? Entrado nos setenta anos, essa é a obra que para Manguel abrange tudo e ele irá se colocar ao lado de Dante para fazer sua própria viagem pela curiosidade. O que Manguel quer mostrar é a intrínseca relação entre curiosidade e linguagem.
Para ele, a literatura é “um valioso repositório de mais e melhores perguntas”, pois não há reflexão sem palavras. “Para investigar, para refletir, para raciocinar, para demonstrar, a linguagem é obviamente a ferramenta essencial”.
No capítulo “O que é um animal?”, Manguel fala sobre os cães e suas relações conosco. Chega a uma sacada maravilhosa a respeito de Dante. É tudo o que direi, pois planejo implantar uma pulga atrás da orelha do futuro leitor. Não é a curiosidade o começo de toda leitura?
Carolina R. Padovani.

