Nós, que criamos o calendário, essa certeza por consenso, ficamos desabituados às dúvidas. Abrindo A Divina Comédia, achamos dificílimo não querer saber exatamente quando que Dante começa sua viagem.
Não fosse todo o trabalho de caminhar em verso, do Inferno ao Paraíso, vamos cobrar do poeta a invenção de uma data. Esse percurso extraordinário sem dia de início agita principalmente os feriadistas. Não é por falta de espaço, é por falta de dados: irão colocar o feriado exatamente onde?
Ora, quem suscita o problema que sugira a solução. Porém, visto que estamos em época de contribuições, uma ajudinha não custa. Como Dante pirava no número três, podemos pensar no três de março, no seis de junho, no nove de setembro. Caso me peçam voto, vou no último porque o Inferno, o Purgatório e o Paraíso têm nove círculos, mas espero que verifiquem qual mês tem mais excesso de dias úteis. Tendo oportunidade, que deixemos algo menos lastimável uma vez ou outra.
Para Dante não é o bastante obscurecer quando sua viagem começa. Ele, que descreve a cara e o rabo das maiores feras empregadas nos açoitamentos tenebrosos dos pecadores, diz que, naquele momento, está na idade do meio. Se Dante, como nós, não sabia os anos em que chegaria ao fim, o meio, convenhamos, é miragem especulativa. Carecia de ser assim aproximativo? A imprecisão não para por aí. Ele conta que estava perdido e nem o motivo sabe ou, se omitiu que sabe, por que mente?
Não é exclusividade do calendário. Qualquer consenso sempre contribuiu para nos tornar mais azucrinantes. Como podemos implicar desse jeito com Dante?
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Por falar em datas e feriados, olhe os desejos que distribuímos nas viradas de ano e me diga se são um rigor de precisão.
Que nada. São os mais genéricos desejos de paz, felicidade, prosperidade, harmonia e luz. Parece abadá para cada um customizar e acusar recebimento retribuindo com similar remessa.
São desejos impalpáveis, que se dispersam pulverizados, meros cumpridores de demandas sociais. Vamos todos nessa linha, porque ninguém deseja abertamente o mal que, sabemos, não pega bem. Em público, só se pode desejar o mal aos maus, aos invejosos, aos ostentadores e com extremo cuidado, que em um estalo de dedos, mudam de lado. É cada coisa que se viraliza hoje e se cancela amanhã.
Já eu tenho desejo concreto e muito bem delimitado: desejo que você leia livros grandes. Falo de tamanho, sim. Têm clássicos bem tiquinhos, mas vou desejar aquilo que você é capaz de correr atrás?
Desejo que você leia um clássico grandalhão, porque ele tem um quinhão de exigências. Ele demanda outro tempo, outro preparo físico e mental, outras perguntas.
Um livro agigantado pode ser um exímio mestre para relacionamentos. Quem se relaciona com um livro comprido não abandona uma parceria sob qualquer dificuldade tão logo entenda, graças à extensão da obra, que os destinos mais maravilhosos estão repletos de obstáculos – Odisseu demorou vinte anos para voltar para casa.
Uma leitura duradoura ajuda a escapar da transitoriedade e auxilia na redução das velocidades. É preciso parar para se mover. Nem mesmo com um apropriado condicionamento físico alguém vai sair andando quilômetros enquanto lê os Ensaios do Montaigne ou A Revolta de Atlas da Ayn Rand.
Como se passa mais tempo com um grandão, vai-se ganhando intimidade e é impressionante o que se pode aprender refazendo os passos de alguém. Desculpe a sinceridade, mas bisbilhotagem é uma das melhores formas de se construir empatia.
Com um clássico encorpado descobrimos um punhado de palavras desconhecidas, o que dá perspectiva à nossa ignorância, aquela perspectiva que perdemos fácil, fácil. Descobrimos ainda a solidão que um grandão nos pede. Fica igualmente a nosso encargo a enumeração das prioridades e o manejo dos devaneios. Não se pode ser desleixado, desatento, desligado ou negligente com um livro robusto aberto.
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Reitero meu desejo: leia livros grandes, se possível, de mil folhas em diante.
E como toda virada de ano é cheia de mandingas, vou trocar as sete ondinhas, as doze uvas, a lentilha e as carnes que não ciscam para trás, por uma única superstição pelo resto do ano. Qual?
Por esta aqui que aprendi com Manguel: “leitores da Idade Média usavam a Eneida de Virgílio como instrumento de adivinhação fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de revelação” (1).
Como tenho esse parrudo Virgílio, agora vou em busca da pergunta. Quem imaginaria que precisaríamos nos reabituar à dúvida até para ganhar uma crendice? É ou não é um bom desejo querer que mais gente no mundo percorra leituras longínquas?
Carolina R. Padovani.
Referência
(1) Manguel, A. Uma história natural da curiosidade.
Trad. Paulo Geiger. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

