A porta da casa é arrombada pela polícia. A gravidade da situação, suspeita-se, dispensa a campainha e solapa a delicadeza das boas maneiras: ali, onde a civilização fracassou, o fino trato se suspende. A entrada truculenta, a muitos exagerada e não importa o caso, é rebatida pela psicóloga, horas depois, em uma pergunta que é tão dirigida ao adolescente quanto aos espectadores: você entende que ela está morta?

De início, um dado serve para estimular uma conjectura: a pueril insegurança pode ser vista como sinal de inocência – o adolescente, acordado no susto, molha as calças. Em seguida, uma câmera de segurança rebate o otimismo com os nítidos contornos da violência. Surpreenderia a alguém se eu dissesse que vale a pena temer os inseguros?
No terceiro episódio sabemos o que se passou: fotos íntimas da adolescente circularam na escola; julgando que ela estaria fragilizada pelo vexame, o adolescente tenta a sorte e, ao ser rechaçado, ele a esfaqueia. Todos, sem tirar nem pôr, conhecem a vergonha e a temem, mas a gente menospreza o seu papel na conduta violenta.
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Segundo Velotti, Rogier e Sarlo, em artigo de 2020, a vergonha é geralmente associada a sentimentos de inferioridade, embaraço e humilhação, o que, para um bicho social, representa um grande temor. Ameaças sociais como insultos, perda de status, exclusão e ameaças ao ego são evidentes nos antecedentes de comportamentos agressivos (Elison et al, 2014).
É como se os indivíduos embarcassem na violência desencadeada pela vergonha empregando a agressão como defesa, estratégia de enfrentamento ou na regulação da vergonha, para manejar a dor ou alterar as dinâmicas sociais ao demonstrar a si mesmos como poderosos em vez de fracos e inferiores (Elison et al, 2014 – citado por Velotti, Elison & Garofalo, 2014).
Uma vez que a vergonha ameaça o sujeito da exclusão social e da desvalorização pessoal, ela produz o que tem sido chamado de dor social e que elicita no cérebro reações de dor física via córtex cingulado anterior e, assim, coopta aqueles mecanismos disponíveis à dor física – de ameaça e defesa, de luta e fuga – e apresenta uma reação igualmente rápida e automática, recebendo operação prioritária à avaliação da consciência: eis a reação por impulso (Velotti, Elison & Garofalo, 2014).
Conforme Velotti, Elison e Garofalo (2014), a vergonha pode, portanto, resultar em uma agressão defensiva, mal adaptada, mesmo contra inocentes e, logo, muitos casos de agressão deveriam ser mais bem compreendidos como reações à vergonha. Além disso, a vergonha estabelece uma elevação da preocupação com si mesmo e uma redução da preocupação com os outros. Teria a ver com autoestima?
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Um estudo de Jones e Elison (2013), descrito por Velotti, Elison e Garofalo (2014), encontrou que a autoestima parece ser um importante e complexo moderador entre sentimentos de exclusão e raiva, possivelmente operando diferentemente para homens e mulheres.
A baixa autoestima em homens é um fator de risco para agressão, mas não se apresse. Quando se considera a exclusão em oposição a ser incluído, as coisas mudam de figura. Consistentemente com uma perspectiva de dominância social, quando há ameaça de exclusão, as respostas agressivas são inibidas em homens com baixa autoestima, mas aumentam em homens com autoestima elevada. Em mulheres, o padrão é diferente. Quanto maior a autoestima, mais ataques a outros, ou seja, a autoestima elevada em mulheres é fator de risco para agressão, mas isso também muda quando há a presença de ameaça de exclusão: mulheres com baixa autoestima atacam mais os outros. Já quando há possibilidade de inclusão, mulheres com autoestima mais alta atacam mais. Resumindo, há uma modulação pelo par exclusão/ inclusão que muda a trajetória da ação conforme a quantidade de autoestima de cada um.
De maneira geral, outros estudos apontaram que, quanto mais sensível o sujeito é à rejeição, qualquer sentimento de vergonha aumentará a sua propensão a avaliar eventos ambíguos como representando uma provável rejeição. Quem espera ser rejeitado, enxerga rejeição em qualquer lugar.
Há mais um detalhe. A propensão à vergonha é positivamente associada com a dimensão vulnerável do narcisismo (Malkin, Barry & Zeigler-Hill, 2011) – e mesmo na população normal, fantasias de grandiosidade e desvalorização produzem agressão em todos (agressão verbal e digital também contam).
Dimensão vulnerável do narcisismo? Ora, mas o narcisista não se sente o maioral?
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Wink (1991) especificou que existem “duas faces do narcisismo”: a forma aberta – com a grandiosidade que leva a expressão direta de exibicionismo, autoimportância e preocupação com receber atenção e admiração dos outros; e a forma coberta – com sentimentos inconscientes de grandeza e falta de autoconfiança e iniciativa, com vagos sentimentos de depressão e uma ausência de entusiasmo para o trabalho, parecendo hipersensíveis, ansiosos, tímidos e inseguros, mas com fantasias de grandiosidade (o estabelecimento de semelhanças com a modernidade, deixo a encargo do leitor).
Em estudo posterior, de 2020, foi encontrado que a desregulação emocional tem mais relação com a grandiosidade narcísica, mas não com a vulnerabilidade narcísica: a via para agressão é especificamente a dificuldade da regulação da vergonha (Velotti, Rogier & Sarlo, 2020). Trocando as palavras, o tipo vulnerável (que tem baixa autoestima, instabilidade emocional, necessidade de reconhecimento e oscilação entre sentimentos de superioridade e inferioridade) é mais propenso à agressão que o tipo grandioso (que tem alta autoestima, atitudes arrogantes, senso de direito e uma forte necessidade de admiração).
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Por fim, vou citar mais um estudo interessante. Ele relaciona a gelotofobia (do grego, gelos, sorriso = medo do riso dos outros) como um importante sintoma relacionado a surtos de agressão e violência (Weiss et al., 2012). Indivíduos com gelotofoia conotam riso em sua presença geralmente como negativo e tendem a assumir que é direcionado para eles próprios – a distorção cognitiva aparece na tendência a perceber raiva em faces emocionalmente neutras e mostram um viés emocional negativo para expressões faciais ambíguas. São hipervigilantes para sinais de escárnio e a pessoas que possam ridicularizá-los e tendem a acreditar serem estranhos por natureza e serem surpreendentemente inexpressivos emocionalmente. Relações entre gelotofobia, agressão e violência são encontradas em evidências anedóticas de que perpetradores de atos de violência, como tiroteios em escolas, têm um horror de serem zombados e seus atos podem ter sido tomados como vingança por terem sido alvo de risos.

O pai do adolescente da série, a despeito da própria infância, decide criar seus filhos sem violência. É possível tentar outra opção e ainda cair em desgraça. Não seria o primeiro a intuir que a violência é mãe da violência, nem o último a se esquecer de ensinar a como lidar com a vergonha – que nada mais é do que ensinar a pensar antes de agir. Aliás, será que sabemos ensinar isso?
Carolina R. Padovani.
P.S.: Sei que a série foi muito comentada, mas creio que eu trouxe um lado que passou batido (a violência desencadeada pela vergonha) – e que pode se ligar facilmente a muito do que foi discutido por aí.
Referências
Velotti, P., Elison, J., & Garofalo, C. (2014). Shame and aggression: Different trajectories and implications. Aggression and Violent Behavior, 19(4), 454-461.
Velotti, P., Rogier, G., & Sarlo, A. (2020). Pathological narcissism and aggression: The mediating effect of difficulties in the regulation of negative emotions. Personality and individual differences, 155, 109757.
Weiss, E. M., Schulter, G., Freudenthaler, H. H., Hofer, E., Pichler, N., & Papousek, I. (2012). Potential markers of aggressive behavior: the fear of other persons’ laughter and its overlaps with mental disorders. PloS one, 7(5), e38088.
Wink, P. (1991). Two faces of narcissism. Journal of personality and social psychology, 61(4), 590.
Resenha da série “Adolescência” (2025) da Netflix.

