Qual a validade de um corpo?
Muito curta quando precisamos manter a farsa de que não perecemos. Elisabeth não serve mais, estragou-se para o uso televisivo. Não se precipite em enterrá-la que seu corpo não é de todo descartável. Ele está apto a receber a substância.
Elisabeth consegue o que quer: um corpo novo para uma vida anterior. Não há preparo para a violência de um desejo que se realiza. Em velocidade estrondosa, Elisabeth assiste ao seu apodrecimento, parasitada pela juventude que ela própria pariu de sua coluna.
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O filme foi muito comentado e acabei me dando ao trabalho de averiguar. Como escreveu Dante Alighieri em A Divina Comédia, “pensa, leitor, no meu desanimar”.
Disseram que era o “novo clássico contemporâneo”. De repente é mesmo, com esse jeito de ventrículo que bota o cérebro do espectador sentado no colo e lhe conduz sobre o que comentar: nada mais atual. O espetáculo visual é para um vidente míope e com catarata: o sangue não pinga, jorra. É terror, eu sei, ficção científica. Enfim, esfera do gosto.
Vou tirar leite de pato que meu leitor não pode chegar até aqui e ficar por isso mesmo. Também preciso dar sentido às mais de duas horas que perdi para me atualizar nessa trend cinematográfica de 2024.
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Sabemos que somos o bicho que pode encontrar uma solução e ainda ficar infeliz.
No filme, é fácil perceber a objetificação da existência e seu custo. Acontece que tanto o sofrimento quanto a coisificação têm a mesma origem: a atividade simbólica humana (1). Como assim?
Ao longo do tempo a nossa espécie conseguiu diminuir as ameaças imediatas à sua sobrevivência. Mas, como se costuma dizer, mente vazia é oficina do diabo. “À medida que os seres humanos cada vez mais olham para dentro de si, a vida começa a parecer mais um problema a ser resolvido do que um processo a ser plenamente experimentado” (1).
A vida de Elisabeth é a fama. Seu espaço vital é tão comprimido (eu diria irrespirável) que não há culpa, não há reflexões. Seu envelhecimento só precisa ser resolvido.
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Retiro da Terapia de Aceitação e Compromisso ou ACT (do inglês acceptance and commitment therapy) dois processos muito claramente presentes em Elisabeth: a fusão cognitiva e a esquiva experiencial.
A fusão cognitiva ocorre quando a pessoa está fusionada com suas cognições, isto é, ela crê em sua mente, ignora todo o resto, bem como as consequências. É por isso que a pessoa fusionada não se pergunta como também não o faz Elisabeth: ela está fusionada à narrativa de que a vida antes era melhor, quando era jovem. Ou seja, Elisabeth deriva a relação de que o melhor está na vida de antes e, logo, na sua juventude.
A psicologia comportamental de terceira onda chama essa disposição de Molduras Relacionais. É um modelo teórico cheio de desdobramentos para o fato, dito em poucas palavras, de estabelecermos uma relação arbitrária, nascida em um determinado contexto, que se repetiu e virou referência: no mundo em que Elisabeth habita, a velhice não recebe holofotes, mas ser jovem é ocupar o centro do palco e, acredita ela, é assim que se deve fazer para ser amada.
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O outro processo descrito pela ACT e que encontramos em Elisabeth é a esquiva experiencial. Ela está imersa nele: sua atenção está estritamente focada e inflexível em ser jovem de novo. Os resultados comuns desse processo são o isolamento ou os excessos comportamentais: não é à toa que Elisabeth descamba na comida nos períodos em que retorna ao seu corpo original.
A esquiva experiencial refere-se a um comportamento submetido ao controle aversivo (no caso de Elisabeth, sair de cena) para não evocar um conteúdo pessoal angustiante (não ser mais amada pelo público).
“Como os comportamentos de esquiva são aprendidos em condições de controle aversivo, é maior a probabilidade de que sejam aplicados de forma rígida, independentemente do contexto atual” (1). Não fosse o bastante, esse comportamento é tão controlado pela conformidade social que o vemos nas tentativas (exauríveis) de agradar aos demais (1).
A esquiva experiencial causa ainda mais restrição comportamental (1), pois um ciclo de esquiva pode se tornar dominante quando a necessidade de manter a esquiva aumenta à medida em que crescem os danos colaterais (1). Duvida?
Elisabeth apodrece, mas continua. Fusionada em sua própria auto-história, uma boneca rodeada de glitter na bola de vidro, rigidamente apegada a uma visão de self impraticável: manter a juventude.
Será que agora esse filme serviu para alguma coisa?
Carolina R. Padovani.
Referência
(1) Hayes, S. C.; Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.
A substância (2024)
Terror/ Ficção Científica
Onde assistir: Prime Video

