Um jovem morre afogado ao tentar salvar uma criança. A versão do que antecede à sua morte heroica está no livro O completo estranho. Nele, o leitor encontra, em um cenário italianamente sedutor, o romance de uma “mulher terrível” que merece seu final.
O que é ficção quando, na realidade, os personagens – o jovem, a criança e a mulher –, existem? Um livro é enviado à mulher. É ali, do meio da sua cozinha, um espetáculo visual à parte, que a vida dessa mulher começa a desabar: o casamento, o emprego, a reputação.
Todos nós temos algum segredo. Ora, e se houvessem fotos dele? O que revela o registro estático e fragmentado do nosso passado? Qual seria a história contada e pelos olhos de quem?
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Uma mãe não pode enterrar um filho sem saber o motivo. Reclusa no quarto de Jonathan, Nancy costura uma mortalha com fotos e eis o tecido: debaixo da terra, está o jovem cheio de vida, que passava pelos habituais perrengues sexuais dos adolescentes, vulnerável o suficiente para ser vítima de uma mulher manipuladora.
Nesse ponto, difícil perguntar quem está manipulando quem: o espectador acha que sabe tudo.
Nancy esconde o manuscrito como mais uma dor a ser enterrada. Stephen, pai de Jonathan, o encontra após a morte da mulher. Toma-o como uma granada e o arremessa sobre a vida de outra família: agora é a vez de Catherine.
Antes de se avistarem os escombros, lê-se o aviso legal (disclaimer) nas páginas iniciais de O completo estranho, “qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência”. O aviso está incompleto, não entrega o principal perigo: os narradores.
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Um narrador em terceira pessoa acompanha o núcleo de Catherine e parece expor as molas psicológicas dos comportamentos. Surge em volume mais baixo, como se sussurrasse segredos. Ganha força ao nos falar aos ouvidos, como um intermediário que dá acesso às intimidades dos personagens.
Enquanto isso, outro narrador, em primeira pessoa, acompanha Stephen que parece estar, como todos os nossos eus, com a razão em mãos. Depois, no último episódio, quando todas as vozes somem, enfim, Catherine consegue a palavra.
Somos chacoalhados. Até então, graças a esses narradores, caminhamos a passos firmes, porém, quando outra versão da verdade se revela, é que somos tomados pelas dúvidas.
A culpa agora cai em nosso colo: ninguém duvidou da primeira narrativa que ouviu. É porque a imaginação é soberana. Ao guiar as nossas percepções, guia também os nossos julgamentos.
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Mario Vargas Llosa, em A tentação do impossível, fala que o personagem mais importante de Os miseráveis de Victor Hugo é o narrador: “é ele quem decide o que se conta e como se conta”, “quem julga e condena não escuta, escuta-se; não dialoga, monologa”, “ele não deixa que o leitor exerça a adivinhação, a intuição, porque ele mesmo preenche todos os vazios: diz tudo”.
Mas parecer que diz tudo é a grande trapaça, pois sustenta uma “recriação da vida tão infiel quanto persuasiva”.
É assim em Disclaimer. Ao usar múltiplos narradores, a minissérie mescla ao vídeo uma artimanha dos livros, apenas para nos enganar melhor.
Carolina R. Padovani.
Referência
Llosa, M. V. A tentação do impossível: Victor Hugo e Os miseráveis.
Trad. Paulina Wacht e Ari Roitman. 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
Disclaimer (2024)
Minissérie em sete episódios.
Onde assistir: Apple TV.

