Carolina R. Padovani

A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e estou no quarto, pois fiz da minha curiosidade uma estudante perpétua. Nessas andanças, profissionalmente virei professora, neuropsicóloga clínica e psicoterapeuta. Apesar de em todo esse percurso escrever textos técnicos, apenas recentemente senti que poderia dizer que sou oficialmente uma escritora. Em 2024 publiquei o meu livro de crônicas chamado “Colunata: a minha coluna inventada e outras lorotas” e lancei este blog (pois senti que o Instagram estava pequeno para mim). Aqui disponibilizo outras crônicas, além de resenhas de livros, filmes e séries. Descobri que escrever é uma forma de pensar sozinha, mas publicar é o melhor jeito de encontrar companhia.

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Colunata: A minha coluna inventada e outras lorotas

Do que são feitas as crônicas?

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Diferente de outros textos, a crônica tem uma mobilidade intelectual, um molejo.

É o pensamento móvel se equilibrando no cotidiano, expondo jogos de relações, dando camadas de profundidade à mais banal das ocorrências. É chique essa interdependência de perspectivas, mas a crônica não é muito de cerimônias, vai lá e adota uma atitude despojada diante do mundo e da vida. Mesmo que tivesse produzido ensaios psicossociológicos em português, Adorno jamais escreveria “molejo”.

A crônica faz uma análise orgânica, não mecânica. Uma bobagem que seja ganha bordas longínquas, estende-se além, infla-se à maneira dos fungos em uma infinidade de desdobramentos. O escritor é tendencioso, mira para onde lhe apetece, alimenta a cepa que lhe agrada.

A crônica é uma espécie de ilha no dia a dia. Contornada, definida e extraída da sequência de atos cotidianos ininterruptos que chamamos de vida normal. Sabemos que a normalidade não é fã de linha reta, vai indo em sinuosidades, nós e numa penca de aborrecimentos.

Temos de reconhecer que a realidade também não é tão dada quanto parece. Requer uma debruçada, uma levantada de sobrancelha, um suspiro profundo e umas boas palavras para o saboreio.

Por isso a crônica começa com um mínimo detalhe que flutua diante do escritor. Como ideia solta se perde, o escritor ampara o detalhe com as vigas da sua escrita. O sentido sempre fica mais apurado com estrutura.

Crônica é pausa enfeitada por movimento mental ritmado e com dupla utilidade. Tem um lado estético, experiencial, sensorial, mas também tem um lado intelectual, gracioso.

Os escritores são sommeliers das experiências humanas. Sei que pode dar nojinho ler uma crônica do João Ubaldo Ribeiro falando de catota de nariz, mas os cronistas, já falei, não são muito inclinados a frescuras e têm verdadeira loucura por tudo aquilo que nos envergonha.

É da crônica ser cheia de concatenações e malabarismos a ponto de transformar um atravessar a rua em aventura onírica: descreve os semáforos com suas luzes inconstantes que não nos salvam dos perigos de se entregar uma gaiola de ferro com rodas e capacidade de alcançar altas velocidades nas mãos de bichos como a gente. Os insanos somos nós.

O leitor sente-se vizinho íntimo do cronista, parede com parede, escuta os pensamentos da varanda com a licença da intromissão. Será que atravessará a rua com a mesma distração depois do cronista contar sua percepção? Essa é a parte mais bela de todas: a crônica transforma a imaginação.

Sei que a crônica é escrita e lida em isolamento, mas, olha que ironia, é exatamente assim que ela nos conecta.

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