Para um bicho que dominou o fogo é de se surpreender com que facilidade ele ignora a fumaça. Houve o alerta. Qual?
Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Este livro é o alerta, diz Neil Gaiman, mas “(…) a raça humana tem o hábito de ouvir as predições do futuro e fazer algo completamente diferente” (1).
Está na mídia: no último ano, o número de leitores diminuiu. Houve estardalhaço o suficiente?
As escolas, escreve Alvin Toffler (1970), mantêm silêncio sobre o amanhã. A ficção científica deveria ser leitura obrigatória, é a literatura sobre o futuro e deve, inclusive, ser “encarada como uma espécie de sociologia do futuro em vez de uma literatura”, pois “a ficção científica tem um imenso valor como força de expansão da mente para a criação do hábito da previsão” (2).
Tudo tem mudado rápido. Velocidade e transitoriedade nos dirigem ao colapso (2).
Qual a temperatura do choque? Duzentos e trinta e três graus na escala Celsius ou quatrocentos e cinquenta e um na escala Fahrenheit. Nesse ponto do termômetro o papel queima.
O que se queima neste mundo distópico criado por Bradbury? Livros.
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Não à toa, Gaiman informa que Fahrenheit 451 “é um livro sobre se importar com as coisas” (1). É, portanto, um contraponto ao desapego da impermanência. Algo precisa ficar.
Pode parecer irônico, mas na descrição de Bradbury os livros são personificados, sob as chamas “os livros morriam” (3). Que ninguém se preocupe, “as pessoas nesses livros nunca existiram” (3).
Quem queima os livros? Os bombeiros. “É verdade que antigamente os bombeiros apagavam incêndios em vez de começá-los?” (3). Sim, mas isso foi antes das casas receberem “um fino revestimento plástico à prova de fogo” (3). As habitações agora são cápsulas de incineração. Claro, “começamos queimando livros e acabamos queimando pessoas” (1).
O dia chega e os bombeiros queimam “uma velha junto com os livros dela” (3). Esta morte não deveria estropiar a alma de ninguém, afinal, “esses fanáticos sempre tentam o suicídio” (3). Mas o bombeiro Montag fica estarrecido. Já havia sido perturbado pelos questionamentos de uma jovem de dezesseis anos no caminho do retorno do trabalho. Clarisse o interpelou com a pergunta mais descabida de todas: “você é feliz?”.
Felizes são os muito ocupados que não têm tempo para pensar no contrário. Em Fahrenheit 451, e é preciso assegurar que falo dele, como se ocupa o tempo? Com telas.
Se você encontrar semelhança com as nossas redes sociais, não fico sozinha. “Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com ‘fatos’ que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente ‘brilhantes’ quanto a informações” (3).
Bradbury sabia que as telas iriam substituir nossas babás. “A gente põe as crianças no ‘salão’ e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa” (3).
Oportuno lembrar que a internet de uso domiciliar apareceu em 1990 e o livro de Bradbury é de 1953. A ficção especulativa é preventiva. Não aborda o futuro, seus olhos estão no presente (1).
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Como tudo começou? Aqui discordo de quem enxerga Fahrenheit 451 como um livro sobretudo político. “A coisa não veio do governo”, “O próprio público deixou de ler por decisão própria” (3). Como tudo o que geralmente nos acontece, é multifatorial: “a tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha” (3).
A jovem Clarisse perturbou tanto o bombeiro Montag que “seus olhos começaram a ficar famintos, como se tivessem de olhar para algo, qualquer coisa, tudo” (3). “Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar” (3).
Montag interpela a sua mulher, Mildred, que é um misto de fantasma com zumbi e se chapa com pílulas para dormir. Telas e soníferos? Não vou apontar essa coincidência depois que os comprimidos de melatonina prosperaram a ponto de me pouparem de uma extensa argumentação.
Não encontrando apoio em sua mulher, Montag vai atrás da possibilidade de um amigo. Do que é feito um amigo? Nesta parte há uma citação lindíssima que diz que a amizade é uma série de gentilezas que uma hora faz o coração transbordar.
Montag reencontra Faber que lhe fala do cheiro do livro: “sabe que os livros cheiram a noz-moscada ou alguma especiaria do estrangeiro?” (3). Sim, eu cheirei o meu logo que li isso. Se você cheirar vai descobrir também e aproveite enquanto ainda temos livros onde podemos meter o nariz.
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Há muita simbologia em Fahrenheit 451, a começar pelos nomes dos personagens. Sim, o nome de Faber vem da fábrica de lápis e o nome Montag vem de uma fábrica de papel. Bradbury diz que foi coisa de seu inconsciente. Eu colocaria na conta do seu senso de humor.
Outro exemplo de simbologia é o sabujo mecânico, que é um grande robô com um sistema olfativo potente. Foi baseado no cão de caça dos Baskerville de Conan Doyle (conhecido pelo personagem Sherlock Holmes) e arrisco que ele se vale de uma inteligência artificial que aprende com a exposição, pois o sabujo sempre farejou algo de estranho e ameaçador em Montag, já nas primeiras páginas, acredita? Seria o cheiro de noz-moscada ou de alguma especiaria do estrangeiro? Leia para saber. Ora, se eu entregar tudo, responderei por estragar um clássico com spoilers. Hoje acontece muito esse tipo de acusação.
Um último exemplo, prometo. O uniforme dos bombeiros tem estampado no peito uma fênix e, no braço, uma salamandra. O vínculo com a fênix é mais batido, é aquela ave que ressurge das cinzas. Já a salamandra, na mitologia, é uma criatura associada ao fogo e que se supunha imune a ele. Tirando as exceções, sabemos que não se pensa mais assim e “os livros servem para nos lembrar o quanto somos estúpidos e tolos” (3), entretanto essa é só uma das muitas mensagens de Bradbury. No ensaio que encerra o livro, ele nos lembra que “o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos” (3).
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Em certo momento, Montag pergunta a sua mulher “(…) como eu posso ficar em paz? Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?” (3).
A mulher de Montag anda por aí sonolenta, as telas estão ligadas e são barulhentas demais. Então eu pergunto a você: há quanto tempo que uma leitura não lhe perturba?
Carolina R. Padovani.
Referências:
(1) Apresentação de Neil Gaiman (abril de 2013) à terceira edição de Fahrenheit 451 do escritor Ray Bradbury. São Paulo: Globo, 2020.
(2) Alvin Toffler, O Choque do Futuro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.
(3) Ray Bradbury, Fahrenheit 451. 3ª ed.São Paulo: Globo, 2020.

