Senhores, olhem as aspas alemãs (<<…>>) com suas robustas mãos-na-cintura contendo frases como militares. Mirem as aspas inglesas (“…”) com seus alfinetes de manto contendo frases como majestades.
Quando o autor foi devidamente inventado, era natural que fosse protegido. No rol de armamentos foram dispostas as aspas, e os mais variados escudos – segundo, conforme, como disse… –, e assim foi-se criando a propícia honraria. Estava decidido: palavras não têm donos, mas as frases sim.
As citações tornaram-se tão reverenciadas que, para ocasiões mais cerimoniosas, foram desenvolvidos protocolos rigorosíssimos. Estes, como toda polidez, requerem o adequado conhecimento e emprego, como descobrem muitos estudantes que voltam a ser atormentados por pesadelos quando passam a viver sob vigência das leis da ABNT.
Citar alguém depende, portanto, de doses significativas de caráter e de aprendizado. O intuito, espero ter esclarecido, era manter embutido o mais distinto respeito por quem construiu a frase. Afinal, não deveria ser segredo para nenhum letrado que a frase pronta custa a ficar… pronta.
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Na fala, as frases são tão mais fáceis de sair – sei que algumas escapam fora de hora à mercê de determinadas cabeças e bocas. Nas conversas, as frases são apenas parte da cenografia, acompanhadas por gestos e um imenso repertório de recursos vocais de entonação e respiro. Na publicação, as frases são tudo. É lá onde elas ficam realmente frágeis e vulneráveis para serem roubadas. Sem aspas e sem outros indicativos, quem notaria que a frase nasceu em outro lugar?
Aspas permitem uma custódia provisória. Entretanto, o roubo tem risco de ser permanente, porque o escritor que se dá conta do que lhe surrupiaram, precisa de bolso e estômago para brigar contra o plágio, além de ter sobrevivido às medicações. Explico com uma diferenciação importante: a mão leve rouba, a mão pesada escreve e… dói.
Escritores têm calos e, se tiverem sorte, ficarão restritos a tendinites, porque a mão que escreve tem a capacidade de fazer padecer o corpo inteiro. Normalmente é a principal responsável por gastrites, infecções de urina, fígados dilatados, pulmões escurecidos e, ao ir para os teclados, costuma gastar olhos, ombros, costas e nádegas. Nunca conheci um escritor que não tivesse o hábito de frequentar uma farmácia.
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Mãos leves batem carteiras e frases com muita facilidade. Isso acontece em virtude da distração. No caso do escritor, o desapego atencional é posterior ao período de obsessão – época em que não é visto (exceto pelos farmacêuticos) e fica inapto para uso cotidiano.
Saliento que não é qualquer frase que é roubada. O escritor tem um bocado delas que não servem para serem lidas nem publicadas, pois estão à espera do retoque ou do descarte. O fato é que se escreve muito para achar o que deve ser escrito. Quem vai querer afanar um produto que, no meio da manufatura, está praticamente impróprio ao consumo?
Tem mais. Se o escritor reclamar do roubo, pode ainda terminar com as piores alcunhas. O acusado do delito, prestes a perder, alegará que as palavras são como fogo, patrimônio da humanidade, na maior cara de pau de que os ladrões são especialistas.
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Provar-se dono de uma frase (ou de uma ideia) está cada dia mais complicado. Os senhores perceberam que a IA não usa aspas?
Basta perguntar que a IA resume a resposta em quatro frases ou dois parágrafos. Aqueles ícones, que eventualmente aparecem após os pontos-finais, são uma patifaria. Soube de três sujeitos que foram às fontes: deles, dois deram gargalhadas e, o último, clicou por acaso.
Poxa, temos de assumir que nós, humanos, ficamos ocupadíssimos desde a invenção do reconhecimento facial e sua aplicação no desbloqueio de procedimentos médicos e governamentais. É a punição que nos coube por todos os atendentes de guichê e de telemarketing que já xingamos. A IA não tem sentimentos, o que não implica que não seja capaz de nos fazer roer de ódio com seus menus – mas o problema é nosso, pois somos a espécie que quer pedir o que o mundo não oferece no cardápio.
Evidente que a tecnologia pode ser fabulosa com seu freguês: completa a palavra, sugere o texto, revisa e traduz o que for sem um pingo de delicadeza com culturalismos, e parece tão inteligente que o sujeito que a utiliza vira crente em osmose (com o QI geral decaindo, não será frutífero discutirmos).
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A IA também tem facilitado a vida dos que têm prazos de entrega e deveríamos estar orgulhosos com sua evolução que, hoje, alcança diploma universitário. Graças ao ChatGPT, e outras medidas anteriores (sejamos justos), a reprovação foi extinta do âmbito pedagógico.
Os preguiçosos e os oportunistas lambem os beiços e a ironia é que eles, que nunca foram de esperar a vez em fila, estão no cume e no auge. Bom, como disse Elias Canetti, em Sobre os Escritores, “escreve-se para ser diferente. Quem frauda a escrita continua sendo o que é de qualquer maneira”.
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Senhores, não sou tecnofóbica. Minha única fobia é o fanatismo. Sofro de fanaticofobia e não pretendo me curar, porque dessa teimosia extraio a essência do meu juízo (que é oscilante, logo, não posso me dar ao luxo de deixá-lo capenga).
No sumo, o que quero dizer é que, sem regulamentação, sem aspas e sem calos, a IA (que tem dono) coordena a mais indecente desapropriação dos escritores. Não vejo muita gente se queixando. Pode ser que a preocupação esteja agora em encontrar roupa para o próximo evento, o nosso retorno ao feudalismo. Os senhores receberam o convite?
Carolina R. Padovani.

