Chatbots são programas capazes de conversar conosco. São adoráveis, versados como poucos na arte da bajulação, e incrivelmente criativos, a ponto de alucinarem.
(Espero não ter surpreendido os senhores, porque não é momento de ficarmos desinformados.)
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Esses conversadores estão cativando os espíritos econômicos (como as grandes empresas repletas de funcionários) e aterrorizando a boletologia dos psicólogos cientes da velocidade das mudanças e que, com um dedo de sabedoria, não ficaram iludidos por normas que aparentemente os iriam favorecer.
A promessa crível da IA é ajudar no orçamento (no tempo, ninguém acredita mais, especialmente depois do reconhecimento facial).
As empresas mal podem esperar por aplicativos que lhes poupem os gastos previstos quando a Norma Regulamentadora Número 1 (NR-1) ser posta para valer (de verdade). Nenhuma delas pretende contratar ainda mais gente de carne e osso. Essa estirpe é inconveniente e o que se dirá dos terapeutas, aqueles que pagam anuidades e podem ser chamados por seus Conselhos a prestar esclarecimentos.
(Senhores, salvo exceções que usam labirintos, toda a psicologia foi acostumada e treinada para o lance homem a homem.)
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Tem mais um problema: os terapeutas não-artificiais querem que as pessoas se comportem bem e que paguem para aprender esse tipo de coisa. Os chatbots com suas opções terapêuticas não ligam para hora em que são acessados, como se nota pelo mesmíssimo e inacreditável humor (de uma constância mecânica) com que se apresentam a qualquer um. Fora isso, trocam de Freud para Jung ou permutam para Skinner conforme o paladar, o sonho ou a preocupação.
Jamais irão reclamar de atrasos, de faltas não avisadas, de pagamentos não efetuados nas datas combinadas. Os chatbots nunca vão nos puxar a orelha. É arriscadíssimo para eles, pois pode afastar a clientela cultivada a base de toneladas de algoritmos. Imaginem os custos.
Em contrapartida, boa parte do trabalho de um terapeuta não-artificial é a mais pura terceirização do guichê de pai e mãe, lugar de preferência para a educação doméstica. Nem toda família cumpre com a respectiva burocracia que, como sabemos, enche o saco e cresce muito mal-agradecida. Depois sobra para o mundo uma penca de mimados para esbarrarem em nós por aí.
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Nas sessões realizadas por profissionais com necessidades fisiológicas é de praxe se descobrir como a maioria das pessoas se sente incompreendida ou injustiçada de alguma forma. A queixa é dia sim, dia sim, relacional.
Relacionamento é habilitação de ser humano usurpada recentemente pela tecnologia e por plásticos fofos (em minha percepção um tanto assustadores) que não sujam as fraldas – ora, pelo menos.
Vale mencionar que as habilidades sociais demandam treinamento contínuo, como o trato com os limites. Em quatro semanas de atendimento, no máximo, se esquentam os motores. O período exato que leva para funcionar com autonomia depende de muitas condições, inclusive, assim me parece, do caráter dos responsáveis (incluindo a sociedade).
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Se temos mecanismos que podem atuar de maneiras inesperadas como elencar uma lista de sugestão de leitura com quinze livros na qual dez são inventados, podemos confiar em mecanismos dessa categoria de atrevimento para tratar ansiedade, depressão e perfil de risco para transtornos alimentares?
Pesquisadores em IA abraçam fácil a mea culpa. Humanos são complexos e igualmente podem fazer besteira nas intervenções. Entretanto somos regulamentados e a IA carece de regulamentação, mas não dorme uma noite sem dono.
A saúde mental é um mercado muito mais aquecido que a saúde literária, portanto, era óbvio que a IA iria alcançar o mal-estar na civilização.
Seja como for, em uma pesquisa com um chatbot de terapia, o Therabot, os participantes (devidamente financiados para completarem o protocolo) alegaram que as ferramentas foram capazes de estabelecer uma aliança terapêutica que não ficava um passo atrás dos terapeutas hominídeos.
Será que elas irão fazer o que é preciso ser feito? Acho difícil, já que as ferramentas de IA se adaptam aos seus clientes, logo, o processo vira tautológico. Confirmem com um ermitão para entenderem melhor os efeitos da privação de um interlocutor para nos dizer que uma ideia não tem um pingo de cabimento.
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Há vantagens, claro. As ferramentas de IA são mais baratas, amenizam o estigma de nossas fragilidades, uma belezinha, e dão a possibilidade de interação ao gosto do freguês. Ajudar no controle inibitório, com certeza não vão e as relações interpessoais requerem muitíssimo essa habilidade.
(Os senhores se lembram do controle de impulsos? Hoje é raro de ver, eu sei.)
Também não me deparei com quem tocasse no assunto do sigilo. Cá comigo me reservo o direito às suspeitas que conheço a lógica parasitária da tecnologia. Durante o uso de um aplicativo, nós fornecemos dados. Fossem inteiramente anônimos não receberíamos as propagandas que fazem parecer que fomos escutados por vendedores com o ouvido colado nas nossas portas.
(E sabem quanto vale um pacote de dados? Os valores não são publicados. Senhores, tem de marcar reunião.)
A IA vai substituir os psicólogos? Pretendo me aposentar para acompanhar essa tendência com mais tranquilidade. Enquanto isso, vou puxando orelhas e, sob os auspícios das plataformas (“pais, avisem aos adolescentes que a IA não é real”) peço que não confundam a psicóloga com a escritora: numa crônica as duas são personagens.
Carolina R. Padovani.

